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ELEIÇÕES PROPORCIONAIS EM GOIÁS E AS RELAÇÕES LÍQUIDAS NA POLÍTICA GOIANA
1. A surpresa que a análise tradicional não previu
No último domingo, 4 de outubro, as urnas goianas entregaram um resultado que contrariou grande parte dos analistas políticos — e eu me incluo nessa conta. A expectativa dominante, ancorada em décadas de comportamento eleitoral, apostava na expressiva continuidade dos mandatos. O raciocínio era sólido: os parlamentares goianos seriam protegidos pela sua ligação histórica com municípios e bases eleitorais, pela conexão financeira construída por meio das emendas parlamentares e pela força do municipalismo, essa engenharia política que transforma o deputado em ponte permanente entre a cidade e o poder central.
O que veio das urnas foi diferente. E o que é diferente, em política, exige explicação — não apenas descrição.
Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), a renovação atingiu cerca de 46% das cadeiras. Dos 41 deputados estaduais, 22 foram reeleitos, 19 são novos nomes e 1 retorna à Casa. Quase metade do parlamento estadual mudou de rosto. Não se trata de um ajuste marginal, de uma troca pontual de cadeiras. Trata-se de um sinal de que algo na relação entre o mandatário e o seu eleitor está se transformando por dentro.
A nova composição também trouxe mais competitividade à ala da esquerda, que se agrupou em torno dos maiores nomes do PT. E, num movimento que diz muito sobre a renovação, seis vereadores de Goiânia ascenderam diretamente para a Alego — entre eles Fabrício Rosa (PT), o mais votado da chapa, e Romário Policarpo (Cidadania), que presidia a Câmara Municipal. A segurança pública, tema que dominou parte da campanha, elegeu novos representantes. O MDB, partido do governador reeleito Daniel Vilela, fez a maior bancada, com 7 cadeiras; o PL veio em seguida, com 5 cadeiras.
No Senado, o recado foi ainda mais contundente. O ex-senador Vanderlan Cardoso (PSD) nãoalcançou a reeleição, apesar de apresentar exatamente o perfil que a análise tradicional considerava imbatível: resultados objetivos, conexões profundas com os municípios goianos e uma rede consolidada de prefeitos. Foram eleitos Gustavo Gayer (PL), com 24,53% dos votos válidos, e Gracinha Caiado (União Brasil), com 21,8%. Vanderlan ficou pelo caminho, com cerca de 9,27%. Também não obteve o sucesso pretendido o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, que fez sua aproximação à vereança e ao eleitorado local sem conseguir converter essa capilaridade em votos suficientes.
O que esses dois casos têm em comum? Ambos construíram carreiras sobre a lógica do enraizamento. Ambos dominavam o território, os nomes, os prefeitos, as emendas. E ambos foram superados por candidaturas que falavam menos de gestão e mais de identidade.
2. O “voto útil” e a nova gramática do eleitor
Nos dias que antecederam a eleição, um dos assuntos mais comentados foi o tal do “voto útil”. Vale explicar de forma coloquial: o voto útil é aquele em que o eleitor abre mão do candidato de sua preferência sincera para votar em quem ele considera mais “viável”, na esperança de não “desperdiçar” o voto. Em vez de escolher por convicção, escolhe por cálculo. A lógica é simples: se o meu candidato não tem chance, melhor votar em quem pode vencer — mesmo que eu não goste tanto dele.
Esse modo de agir, que à primeira vista parece uma decisão exclusiva do eleitor, também foi adotado por atores políticos. E aqui está o ponto que considero mais revelador deste pleito: a sensação de “utilizar melhor o voto” desarticulou bases eleitorais inteiras. A militância, o esteio das campanhas, os apoios políticos que sustentavam candidaturas municipais — muitos optaram por, silenciosamente, desmobilizar a própria estrutura e migrar para outro candidato.
Chamo essa dinâmica de desistência antecipada do próprio apoiador. Não é a traição clássica, ruidosa, que aparece nos noticiários. É algo mais sutil e, por isso, mais perigoso para o político tradicional: o apoiador não abandona o candidato com um discurso de rompimento — ele simplesmente deixa de mobilizar. Não convence mais ninguém. Não faz mais o corpo a corpo. Não entrega aquele voto que antes parecia garantido. A estrutura de campanha, que é feita de relações pessoais e favores acumulados, simplesmente esvazia.
Esse fenômeno não é exatamente novo. Mas, em um processo político-eleitoral polarizado, ele se torna evidente: uma candidatura ideologicamente posicionada toma proporção maior do que os resultados objetivos que um mandato pode oferecer. O eleitor que antes avaliava o deputado pela obra entregue, pela emenda liberada, pelo posto de saúde inaugurado, agora parece pesar outra coisa na balança — a identidade, o lado, a narrativa.
3. As relações líquidas na política
Para entender o que está acontecendo, vale recorrer à imagem do sociólogo Zygmunt Bauman sobre a “modernidade líquida”. Bauman descreveu uma época em que as relações humanas perderam a solidez: tudo é fluido, provisório, descartável. Os vínculos deixaram de ser estruturas duráveis e se tornaram conexões que se estabelecem e se desfazem com facilidade, conforme a conveniência do momento.
A política goiana — e a brasileira, de modo geral — está vivendo essa liquidez. A redução do vínculo partidário é a manifestação mais visível: o eleitor já não se sente preso a um partido, a uma sigla, a uma história. Mas há uma camada mais profunda, que é a relação líquida entre mandatário e apoiador. O apoiador deixou de ser um aliado vitalício. Ele se tornou um parceiro de ocasião, que permanece enquanto a aliança lhe for útil — e que se desfaz, silenciosamente, quando outra oportunidade parece mais vantajosa.
O resultado disso é brutal para o político tradicional: os resultados objetivos de um mandato, aquilo que antes era a moeda mais valiosa da reeleição, tornaram-se material insuficiente. O deputado pode ter entregue obras, liberado emendas, atendido prefeitos, inaugurado hospitais — e ainda assim ser descartado, porque a relação que o sustentava não era mais sólida, era líquida.
A emenda parlamentar, que durante anos foi o cimento da política municipalista, perdeu parte de sua força como instrumento de fidelização. Ela ainda é importante, sem dúvida. Mas, num ambiente polarizado, o eleitor parece não converter mais a obra recebida em voto garantido. A gratidão, que era o motor da política local, cedeu espaço ao cálculo.
4. O risco para os eleitos em 2026
Aqui está a advertência que considero mais urgente. Os eleitos no último domingo, especialmente os novatos na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa, já podem começar a se preparar para 2030. E o alerta é direto: a distribuição de emendas pode não ser suficiente para engajar os eleitores.
Se a relação entre mandatário e apoiador é líquida, então o mandato construído exclusivamente sobre a distribuição de recursos carrega uma fragilidade estrutural. O deputado que acredita estar seguro porque liberou emendas para os municípios da sua base pode descobrir, em 2030, que essa base se dissolveu — não por ingratidão, mas porque a lógica que a sustentava mudou.
O político municipalista, o político tradicional, aquele que construiu a carreira sobre o enraizamento e a capilaridade, precisa entender que o terreno sob seus pés não é mais omesmo. A pergunta que se coloca — e que dá título a esta reflexão — é: qual é o antídoto para um parlamentar municipalista ou um político tradicional não ficar na rabeira do resultado quando enfrenta opositores midiáticos, polêmicos ou de lados da polarização política?
5. O antídoto: uma proposta em quatro movimentos
Não tenho a pretensão de oferecer uma fórmula definitiva. Mas acredito que o antídoto passa por quatro movimentos que o político tradicional precisa incorporar com urgência.
Primeiro: construir identidade, não apenas entregas. O político que se define apenas pelo que entrega está condenado a competir no terreno que não domina. Em um ambiente polarizado, a disputa se dá por identidade, por narrativa, por posicionamento. O municipalista precisa aprender a falar a língua da identidade sem abandonar a sua força territorial. Não se trata de abandonar a obra — trata-se de dar a ela um significado, uma narrativa, um “lado”. A obra entregue precisa contar uma história sobre quem é o político e o que ele defende.
Segundo: transformar apoiadores em militantes, não em clientes. A relação líquida se instala quando o vínculo é apenas transacional: eu dou a emenda, você me dá o voto. Para criar solidez, é preciso transformar o apoiador em alguém que acredita no projeto, não apenas que se beneficia dele. Isso exige comunicação constante, presença, escuta — e, sobretudo, a construção de uma causa compartilhada que sobreviva à ausência de recursos.
Terceiro: dominar as novas arenas de comunicação. O opositor midiático, polêmico, vence porque ocupa o espaço da narrativa. O político tradicional, preso ao corpo a corpo e ao gabinete, muitas vezes não existe no debate público. O antídoto não é imitar a polêmica — é ocupar o espaço com conteúdo, com presença digital, com uma comunicação que alcance o eleitor que não frequenta a praça nem o comício. A capilaridade física precisa se somar à capilaridade digital.
Quarto: diversificar a base, não depender de um único esteio. O político que depende de um único grupo de apoiadores, de um único prefeito, de uma única estrutura, fica refém da desistência antecipada. Se esse esteio decidir silenciosamente migrar, a estrutura inteira desaba. O antídoto é construir uma base diversificada, com múltiplos pontos de apoio, de modo que a saída de um não derrube o conjunto.
6. O que as urnas de 2026 ensinam
As eleições de 2026 em Goiás ensinam que a política municipalista não morreu — mas que ela já não basta. O enraizamento, as emendas, os prefeitos, a capilaridade: tudo isso continua valendo. Mas, sozinho, não sustenta mais um mandato diante de uma candidatura que fala a língua da identidade e da polarização.
A renovação de 46% na Alego, a ascensão dos vereadores de Goiânia, o insucesso de Vanderlan Cardoso no Senado — todos esses fenômenos apontam para a mesma direção: a política goiana está se tornando líquida. As relações que antes pareciam sólidas, duráveis, quase permanentes, agora se desfazem com a velocidade de um cálculo eleitoral. O que era cimento virou água — e quem construiu a carreira sobre o cimento precisa reaprender a nadar.
Para o político tradicional, há duas escolhas possíveis. A primeira é negar a mudança, acreditar que a próxima eleição será como as anteriores, e correr o risco de acordar, em 2030, com a base dissolvida e o mandato perdido. A segunda é aceitar que o terreno mudou e se adaptar: construir identidade, transformar apoiadores em militantes, dominar a comunicação e diversificar a base.
Aos eleitos no domingo, fica o conselho que ofereço com a humildade de quem também errou na previsão: o mandato que começa agora não é uma recompensa pelo passado, é uma aposta no futuro. E, num mundo de relações líquidas, a aposta mais segura é aquela que se constrói não sobre a gratidão dos que receberam, mas sobre a convicção dos que acreditam.
Kim Macherini Sociólogo e Diretor da Santa Dica Pesquisas Goiânia – GO, 06 de outubro de 2026
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