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Nem todo voto se transfere: a liquidez dos apoios políticos no segundo turno para Presidente
A véspera que a Quaest não acertou
Começo pelo dado que mais me interessa — e que, confesso, me demonstra na prática a função da pesquisa – fotografar o momento. Na pesquisa Quaest divulgada na véspera do primeiro turno, em 3 de outubro, o cenário estimulado em votos totais dava Lula 46% x Flávio Bolsonaro 45% — Lula numericamente à frente. Nas urnas, no domingo 4, Flávio fez 47,03% e Lula 45,16% dos válidos — 56,1 milhões de votos contra 53,8 milhões. A diferença real, de 1,87 ponto, ficou a um suspiro dos 2 pontos projetados. A Quaest não acertou a ordem e nem a distância. Para quem vive de medir intenção de voto, a véspera foi um exercício de firmar que pesquisa não é resultado e nem fim.
O contraste entre os números merece pausa. Observar os estratos da intenção de voto deixa claro que a ordem dos candidatos invertia dependendo de onde se cortava a base — e só quem leu os dois números saiu da véspera sabendo o que viria. É uma aula de metodologia que o debate público raramente faz.
A mesma véspera, porém, expôs um desconforto que o meu ofício costuma dissimular: a Quaest clareou o entendimento. A maior parte dos institutos não projetou Flávio Bolsonaro na frente do primeiro turno — e o debate sobre o chamado “voto tardio” não resolve a conta. Os próprios institutos admitem que a migração de última hora não explica sozinha a diferença entre as pesquisas e a urna. Para alguns analistas, o dado mais importante não foi o erro final, mas a trajetória: o crescimento consistente de Flávio ao longo das rodadas — de 31% para 38% em votos totais entre agosto e outubro, na série da Quaest — que boa parte da classe política e da mídia demorou a levar a sério.
Guardo essa lição para o que vem agora, porque o segundo turno começou exatamente como o primeiro terminou: com números que desafiam o que todos achávamos saber.
O retrato do segundo turno: empate técnico com o país inteiro em campo
Na quarta-feira, 14 de outubro, a Quaest divulgou a sua primeira pesquisa para o segundo turno, encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Globo. O levantamento, realizado entre os dias 10 e 13 com 2.154 eleitores e margem de erro de dois pontos, dá a Flávio Bolsonaro 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula — empate técnico. Em votos válidos, o quadro equivale a algo em torno de 51% a 49% para o senador.
O que isso significa quando posto lado a lado com a véspera do primeiro turno? Na simulação de segundo turno daquela pesquisa de 3 de outubro, os dois apareciam empatados dentro da margem, com dois pontos de diferença. Onze dias depois, com a campanha do segundo turno já em campo, a distância permaneceu em dois pontos: os dois cresceram com a absorção parcial dos votos dos terceiros colocados, e nenhum conseguiu se desgrudar. O mapa congelou.
E não é a Quaest que diz isso sozinha. O Datafolha de 8 de outubro dava 49% a 45% para Flávio. O PoderData/Aya de 13 de outubro apontou 51% a 49% em votos válidos — com Lula reagindo, depois de um gap de 6 pontos na rodada anterior. O BTG/Nexus, também do dia 13, registrou 52% a 48%. Nesta quinta-feira, 15, o Indexa/Broadcast confirmou o empate técnico em 51% a 49%, e o Palver cravou 50% a 49%. Institutos diferentes, metodologias diferentes, uma mesma conclusão: o segundo turno nasceu empatado, com Flávio numericamente à frente e Lula em trajetória de recuperação.
A aritmética dos apoios: o teto que a conta dos governadores prometia
Se o segundo turno fosse decidido por declaração de apoio, já teríamos campeão. O levantamento do g1 mostra 19 governadores — eleitos e candidatos ao segundo turno nos estados — ao lado de Flávio Bolsonaro, contra 8 com Lula e 6 neutros ou silenciosos. Entre apenas os eleitos no primeiro turno, são 12 para Flávio e 5 para Lula, com 4 sem posição pública. O senador do PL reúne os aliados nos três maiores colégios eleitorais do país; Lula concentra os seus no Nordeste.
Goiás é o microcosmo perfeito dessa aritmética. Em 6 de outubro, dois dias após as urnas, Ronaldo Caiado (PSD) e o governador reeleito Daniel Vilela (MDB) anunciaram, juntos, no comitê do MDB em Goiânia, o apoio a Flávio Bolsonaro — com a presença de Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo, e dos senadores eleitos Gustavo Gayer (PL) e Gracinha Caiado (União Brasil). Dias antes, a federação União Brasil-PP já havia declarado apoio ao senador. “Coerência da minha vida é derrotar o PT em uma eleição e tem 40 anos que faço isso”, resumiu Caiado.
A projeção teórica, agora com os números finais das urnas, era esta: some ao Flávio dos 47,03% o eleitorado dos terceiros colocados que declararam apoio ao senador — Augusto Cury, com 2,89% dos válidos (3,4 milhões de votos), o próprio Caiado, com 2,18% (2,6 milhões), e Zema, com 0,27% — e o teto teórico de Flávio chegava a aproximadamente 52,4%, com cerca de 6,4 milhões de votos disponíveis para transferência. Renan Santos, o segundo mais votado fora os dois líderes, com 2,24%, não declarou apoio a nenhum dos dois. A pergunta que o país inteiro fez na semana passada era apenas uma: com quantos pontos Flávio venceria.
O efeito até agora: a transferência que não veio
Ocorre que a transferência não veio — pelo menos não em bloco. E os números da semana passada são inequívocos.
A pesquisa BTG/Nexus mediu o fenômeno com precisão cirúrgica: 98% dos eleitores de Flávio e 98% dos eleitores de Lula mantêm a sua escolha. As duas bases estão congeladas. O jogo está no eleitorado dos terceiros colocados — e lá a divisão é quase equilibrada: 45% preferem Flávio, 32% Lula e 19% optam por branco, nulo ou nenhum. Nem metade do eleitorado “órfão” seguiu o padrinho que endossou o senador.
A Quaest do segundo turno acrescenta o recorte mais fino de todos: entre os que declaram ter votado em Ronaldo Caiado — grupo que representa 2% do eleitorado —, apenas 42% pretendem votar em Flávio; 23% escolhem Lula; e 33% dizem que votarão branco, nulo ou não irão às urnas. O eleitorado do homem que subiu ao palco para declarar “40 anos de coerência” se partiu em três. O PoderData capturou o mesmo movimento pela outra ponta: entre a rodada de 8 de outubro, quando Flávio tinha 53% contra 47% de Lula, e a de 13 de outubro, com 51% a 49%, a vantagem do senador caiu pela metade — justamente no período em que a onda de apoios dos governadores se anunciava e se consumava.
Há um dado da Quaest que ajuda a entender o porquê. Perguntados sobre a motivação do voto, 73% dos eleitores de Lula dizem que votam nele por ser o melhor candidato; entre os de Flávio, o percentual é de 53%. O voto de Lula é, em maior medida, um voto de convicção — mais difícil de desmobilizar, mais resistente a endosso. O voto de Flávio é mais transacional, mais sensível ao contexto — o que lhe abre teto para crescer, mas também o torna mais vulnerável à dispersão. Somem-se a isso os 51% de rejeição que o BTG/Nexus registra para o petista, e teremos o retrato completo: dois candidatos amarrados, um pela convicção dos seus, outro pelo teto poroso dos adversários.
Quem acompanhou a minha coluna anterior sobre as eleições proporcionais em Goiás reconhecerá o padrão. Eu sustentei ali que as relações políticas se tornaram líquidas: o vínculo partidário enfraqueceu, o apoiador desmobiliza em silêncio, e os resultados objetivos de um mandato viraram moeda de troca insuficiente. O segundo turno presidencial está dando a essa tese uma confirmação em escala nacional. O apoio político deixou de ser transferível. O governador declara, a federação assina, o ex-adversário sobe ao palco — e o eleitor, lá embaixo, decide sozinho, seguindo identidades e narrativas que nenhuma estrutura partidária controla.
O laboratório goiano: quando o alinhamento ideológico vira tendência
Se no plano nacional a transferência de votos fracassou, em Goiás a reta final contou uma história diferente — e complementar. Lá, o que se viu não foi o apoio institucional transferindo voto. Foi o alinhamento ideológico fazendo o trabalho que as estruturas não conseguem mais fazer.
Os números da Quaest em Goiás contam a trajetória com precisão. Em julho, Ronaldo Caiado liderava a disputa presidencial no estado com 33%, contra 27% de Flávio e 23% de Lula. Em 24 de setembro, a ordem havia se invertido: Flávio 33%, Lula 27%, Caiado 23%. Na série da Real Time Big Data, o movimento é o mesmo: em julho, Caiado tinha 37%; em 22 de setembro, 31%, empatado tecnicamente com Flávio, que subia para 30%. Nas urnas, Caiado fechou em terceiro no seu próprio estado, com 12,34% — enquanto Flávio cravava 53,61%.
O que aconteceu nas últimas semanas antes da votação? O eleitorado de direita goiano, que se dividia entre o filho do ex-presidente e o seu ex-governador, resolveu a ambiguidade em favor de Flávio. Não foi um gesto de obediência ao aparato — foi um gesto de identidade. O eleitor conservador goiano olhou para os dois candidatos do seu lado do espectro e escolheu o mais ideologicamente alinhado, migrando de Caiado para Flávio semana após semana, numa tendência que as pesquisas registraram com clareza e que a urna confirmou em bloco.
O mesmo efeito apareceu, amplificado, no Senado. Gustavo Gayer (PL) — candidato de discurso duro, midiático, ideologicamente alinhado a Flávio Bolsonaro — aparecia com 13% das intenções de voto totais na Quaest de 24 de setembro. Na véspera, já somava 15% — 21% em votos válidos, atrás apenas de Gracinha Caiado. Nas urnas, foi o senador mais votado de Goiás, com 24,53%. Enquanto Vanderlan Cardoso, o municipalista com prefeitos e emendas, derretia de 10% para 9,27%, Gayer crescia na mesma velocidade em que o eleitorado de Caiado escoava para Flávio. Os dois movimentos são o mesmo fenômeno visto de ângulos diferentes.
Aqui está a lição que o laboratório goiano oferece ao resto do país: a chegada de um candidato ideologicamente alinhado a Flávio Bolsonaro produz um efeito rápido e cria tendência. Não precisa de estrutura, não precisa de emenda, não precisa de prefeito. Precisa de identidade e de megafone. O eleitor que se reconhece no discurso migra em dias, não em anos — e a migração, uma vez iniciada, ganha inércia própria, alimentada pela percepção de que “o lado” está crescendo. É o oposto exato da lógica municipalista: enquanto a obra constrói vínculo lentamente e o perde de uma vez, a identidade constrói pouco e transfere rápido.
A reação que já começou: ruas, redes e o silêncio rompido
É neste ponto que a eleição de 2026 ganha a sua segunda metade — e que a minha análise precisa ser lida pelo que é: um retrato do momento, não uma sentença. A eleição não acabou. E o que se vê desde a segunda-feira seguinte ao primeiro turno é a tentativa mais organizada, até agora, de combater exatamente o fenômeno que descrevi acima: o silêncio, a inércia e a dispersão do eleitorado que deveria transferir o voto.
Do lado de Lula, a reação tomou duas formas complementares. A primeira foi sair das redes para as ruas. Depois da perplexidade com a vantagem de Flávio, a campanha petista encontrou nas manifestações uma energia que lhe faltara antes da votação: atos em 11 capitais na semana passada, o grande comício na Avenida Paulista com o próprio presidente discursando em cima de um trio elétrico, e uma agenda que se estende até a véspera da votação — mais de 40 atos de rua cadastrados na plataforma “Na Rua com Lula” entre os dias 14 e 17, de Norte a Sul do país, com a juventude universitária, sindicatos e movimentos populares como motor. A segunda forma foi profissionalizar a guerra digital: um núcleo montado no quartel-general para coordenar as redes, canais de WhatsApp mobilizando apoiadores para compartilhar conteúdo e rebater o adversário, e o alcance de figuras como o deputado André Janones — cujo canal “Exército do Lula” reúne cerca de 3,6 milhões de inscritos — e a deputada eleita Erika Hilton, com seus 5,4 milhões de seguidores.
O que essa mobilização faz, na minha leitura, é exatamente o antídoto contra a política líquida que este artigo descreve. Ela opera em três frentes que se somam:
Primeira: romper o silêncio e a inércia do eleitorado. O dado mais revelador da Quaest do segundo turno é o destino dos que não votaram no primeiro turno: 43% das abstenções planejam votar em Lula, contra 38% em Flávio. São 33,4 milhões de eleitores que ficaram em casa em outubro — um contingente maior que o eleitorado de qualquer terceiro colocado. A mobilização de rua e digital existe, antes de tudo, para converter esse silêncio em presença: tirar o eleitor passivo do sofá e levá-lo à urna. Quem mobiliza convicção mobiliza abstenção.
Segunda: reposicionar os que poderiam transferir o voto. Os 19% do eleitorado dos terceiros colocados que respondem “branco, nulo ou nenhum” — e os 33% dos eleitores de Caiado que sinalizam o mesmo — não são um bloco perdido: são um bloco não endereçado. A onda de atos e a ofensiva digital funcionam como um convite permanente a esse eleitorado disperso, oferecendo a ele um motivo para sair da neutralidade. Não é coincidência que a vantagem de Flávio tenha encolhido de 6 para 2 pontos no PoderData justamente na semana em que as ruas e as redes se encheram.
Terceira: devolver densidade ao vínculo. A militância que desmobiliza em silêncio é o sintoma da relação líquida. O ato de rua é o seu oposto: é o vínculo sendo reafirmado em público, corpo presente, bandeira erguida. A campanha de Lula está tentando reconstruir, na força, aquilo que a estrutura partidária já não consegue sustentar sozinha — e o próprio adversário confirma o efeito: aliados de Flávio falam em “situação de risco”, o senador convocou o seu “Bloquinho do 22” na Paulista em resposta, e a sua campanha corre ao Tribunal Superior Eleitoral para tentar conter a reação. Ninguém reage com essa energia a um adversário derrotado.
Vale a honestidade metodológica: ainda é cedo para saber se essa mobilização será suficiente. As pesquisas da semana mostram movimento, não veredito — o empate técnico persiste, e os 7% de eleitores que dizem ainda poder mudar de voto são a fronteira exata onde essa disputa se resolve. O que se pode afirmar, com os dados na mão, é que a inércia que favorecia Flávio deixou de operar sem resistência. O tranco dos apoios — a sensação de que a aritmética dos governadores levaria o senador à coroação — encontrou um contrapeso que não estava no mapa das declarações de apoio: a rua, a rede e o eleitor que decide sair do silêncio.
O momento, e apenas o momento
Fecho onde comecei, com a honestidade de quem vive de medir e sabe os limites da própria régua. Este artigo é uma análise do momento — do quadro desenhado pelas pesquisas, pelas urnas do primeiro turno e pela mobilização que toma as ruas e as redes nesta semana. A eleição será decidida no dia 25, e entre aqui e lá cabe tudo: o debate, a agenda econômica, os atos, os erros, o imponderável.
O que o momento já ensina, porém, é suficiente para consolidar a tese que defendo desde a coluna sobre as eleições proporcionais em Goiás. Na política líquida em que nos tornamos, o apoio institucional não transfere voto; a identidade transfere rápido; o silêncio do eleitor é a maior variável em jogo; e quem consegue romper esse silêncio — seja com a obra que ganha narrativa, seja com o ato de rua que devolve densidade ao vínculo — disputa de igual para igual. As urnas de 4 de outubro mostraram o poder da dispersão. As ruas e as redes desta semana mostram a tentativa de contê-la. O dia 25 dirá qual das duas forças pesou mais — e essa conta, diferentemente das demais deste texto, ainda não foi feita.
Kim Macherini Sociólogo e Diretor da Santa Dica Pesquisas
Goiânia, 15 de outubro de 2026
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